Em escritórios onde existe o ‘promoter’ social, ou seja, a pessoa que agita as comemorações corporativas, o maior pecado que um funcionário pode cometer é tentar manter a sua individualidade. A pessoa que tenta manter-se estritamente no seu trabalho e não quer conviver com os colegas além do trato estritamente necessário do profissional (afinal, é um direito), ganha alcunhas do tipo ‘anti-social’, ‘não-sociavel’ e volta e meia é apunhalado moralmente, como se fosse obrigado a dar informações da sua vida para os imbecis plenipotentes de escritório.
Julho 8, 2008
Constatações
Chefes que pensam ser Napoleão Bonaparte. Metrô cheio. Gente hostil pelas ruas. A dificuldade de atravessar a rua (os carros não dão vez), a mulher do café que se compota como se fosse a rainha da Inglaterra. Pergunto-me: como é que consigo respirar e como ainda consigo pensar frente a tanto ruído?
Arquivado em Ignomínias, Malabarismo social, Violência corporativa, Vulgaridades
Junho 19, 2008
Arraial
Arraial no escritório? Em dia de semana? Na hora do almoço? É, com perdão da expressão, de foder. O único momento que se tem de abstração dos movimentos palúdicos do escritório será tolhido em nome dos festejos juninos. Tudo em nome do introsamento e da boa-convivência. Engolir paçoca e cural com o veneno consueto. A raiva é não poder sair com risco de ser mal visto o resto do ano (quando, no Natal novamente, deve-se fugir das comemorações natalinas corporativas). E o pior: sem quentão.
Arquivado em Acepipes e quitutes, Efemérides, Malabarismo social, atividades lúdicas
Maio 21, 2008
Avaliação do lobo pelos carneiros
Auto-avaliação. Como alguém pode auto-avaliar-se num ambiente punitivo? Expor-se e expor suas mazelas e problemas? Num país onde o desemprego reina, o medo manda e a traição ordena, alguém que, legitimamente quer expor-se pode terminar na rua da amargura.
Fiz auto-avaliação no trabalho, um escritório como mil há. Dei-me notas que considerei altas: nenhuma abaixo de sete e nenhuma maior que nove, ou seja, tudo dentro duma certa linha mediana: nem muito ruim, nem muito bom. Quando da careação com o superior, meu chefe disse “estar passado” porque eu tinha dado-me notas muito baixas; fez com que eu refizesse e as subisse.
Hoje, dou de cara com as avaliações gerais, afixadas numa parede. A nota mais baixa era um 9,25. Como assim?! Um lugar com tantos problemas e todo mundo se deu entre nove e dez? O senso de auto-conservação (e covardia e mediocridade também) fez com que as pessoas se dessem notas altas. Fico indignado de notórios boçais terem tido dez no desempenho geral! Ou seja, a avaliação não serviu para picas nenhuma!
Março 24, 2008
Inveja
É algo que não se consegue extirpar dos escritórios. Se um funcionário tem um horário flexível, os outros que não podem (devem) ter a mesma regalia, morrem-se de inveja. Se nenhum tem, vigiam-se furiosamente: qualquer deslize, insidiosamente, vai parar na orelha suja do chefe. E chefe, como se sabe, é animal raivoso por excelência: morde até sombra.
Março 4, 2008
Amigo chocolate
Alguns setores e escritórios por todo país são, nesta época, chacoalhados pela fúria cuniculóide da Páscoa. Resolve-se, para o lamento das pessoas que tentam manter-se à margem da demência coletica, um “amigo-chocolate”. No que consiste mais essa brincadeira de mal gosto da socialização forçada?
Funciona como o horrendo e lamentável amigo-secreto natalino. Só que ao invés de muamba e produtos falsificados, troca-se chocolate; ovos de chocolate.
Primeiro, faz-se um sorteio: cada um pega um papelzinho que contém o nome de um colega. Há lugares onde circulam listas e a pessoa escreve nelas qual tipo específico de ovo e chocolate quer ganhar, o que acaba com a pouca graça que o “evento” poderia ter. Escolhe-se um dia no término do expediente para fazer a entrega. Entre abraços de urso e falsidades mais miúdas, consigam-se os chocolates uns aos outros.
Se você perguntar qual o escopo da Páscoa, talvez dois ou três dignem-se a dar uma resposta minimamente coerente. Tente sugerir na sua caverna de trabalho que vocês troquem ovos de galinha cozidos e pintados, como fazem os romenos. Só não lhe baterão por um resquício de civilidade. A cousa é comprar, consumir e fazer-se de bonzinho.
Fevereiro 20, 2008
Linguarudo
A tua língua, elemento, de tão longa, mal cabe na fossa da tua boca e é o teu bócio moral. Tudo que escutas, distorces e retransmite como te convém. És nocivo, és malévolo. Todas as tuas ações têm por objectivo danificar, ofender e rebaixar, para que te pareças melhor frente às alturas insondáveis das chefias. Tu, imbecil que arrota presunção, ignorante e vazio, vives para o trabalho como a lama está para o chiqueiro: elameias os porcos. Tua língua ascosa de baba venenosa e cáustica espalha insídias e perfídias, micróbios que habitam e vegetam tua latrina chamada boca.
Arquivado em Ignomínias, Malabarismo social, Tipos humanos
Janeiro 27, 2008
Diálogo
- É… foram anos de treino com a lista telefônica.
Janeiro 8, 2008
Como resolver?
É assim que as suas petições são resolvidas nas repartições públicas e serviços de atendimento ao consumidor.
Dezembro 23, 2007
Música para executivos
Aproveitando o fim-de-ano, o Quintos da Repartição manda aos executivos, chefes de setores, supervisores de telemarketing uma música para o vosso réveillon corporativo. Seria muito interessante que se organizasse uma gincana entre os funcionários para ver quem consegue cantar a música em errpañol sem engasgar com a pronuncia peninsular. O campeão levará para casa uma caixa de torradas, levemente salgadas.
A usted
(Joan Manuel Serrat)
A usted que corre tras el éxito,
ejecutivo de película,
hombre agresivo y enérgico
con ambiciones políticas.
A usted que es un hombre práctico
y reside en un piso céntrico,
regando flores de plástico
y pendiente del teléfono.
A usted que sabe de números
y consta en más de una nómina,
que ya es todo un energúmeno
con una posición sólida.
¿No le gustaría
no ir mañana a trabajar
y no pedirle a nadie excusas,
para jugar al juego
que mejor juega
y que más le gusta…?
¿No le gustaría
ser capaz de renunciar
a todas sus pertenencias,
y ganar la libertad
y el tiempo que pierde
en defenderlas…?
¿No le gustaría
dejar de mandar al prójimo,
para exigir
que nadie le mande lo más mínimo…?
¿No le gustaría
acaso,
vencer la tentación
sucumbiendo de lleno en sus brazos…?
Antes que les den el pésame
a sus deudos, entre lágrimas,
por su irreparable pérdida
y lo archiven bajo una lápida.
