Novembro 21, 2006...10:58 am

Teratologia burocrática

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Na selva do serviço público, há os chefes que babam e rugem. Mas não mordem. Os que mordem soem ser silenciosos, como cobras. Os puxa-sacos são como as cabras, balem e chacoalham as suas sinetas e costumam comer a grama seca. Os ventisilvas giram indiferentes, como todos dentro da repartição, fazem o que fazem há mais de vinte anos. Dos grampeadores, descasca-se o esmalte já fosco e ensebado por milhares de mãos de uso; as mesas mantêm marcas de velhos acidentes: lanhos superficiais, fossilizados por décadas de pano sujo e poeira, e manchas variegadas. Os telefones tocam, sôfregos, como um último grito de desespero. Os cinzeiros vivem cheios até a borda, toneladas de pontas de cigarro, com filtro, king size, extra-forte, de acordo com o gosto do ocupante da mesa. A garrafa térmica borbulha a cada compressão, drenando o café lodoso e morno ali contido. Há vinte anos o café é tão bom quanto betume ou hulha, há vinte anos a mulher do café é esconjurada todos os dias úteis – exceto nas pontes de feriado -, há vinte anos todos bebem aquele café, refugo cuspido de más-vontades.

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