março 7, 2007...4:47 pm

Socialização forçada

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É comum nos escritórios uma certa socialização: uma festa de fim-de-ano, o aniversário do chefe, os jogos da Copa. Todos envolvendo uma certa distração e com intuito de liberar os funcionários um pouco da lide de cada dia. Nada reprovável, pelo contrário: se há trabalho, por que não poderia haver também alguns instantes agradáveis e relaxantes? Porém, não costuma ser assim que funciona.
Ocasiões festivas são muito usadas por encarregados subservientes para pavonearem-se diante das chefias: parece o desfile da escola de samba do puxa-saquismo. Ao invés do infeliz recostar-se e esquecer-se um pouco daquilo que o oprime, ele prefere, para infelicidade geral dos presentes à ocasião, relatar seus louros burocráticos e desfiar todo um rosário de acontecimentos em que ele foi herói e protagonista, tão cansativo quanto o catálogo das naus da Ilíada (1) ou aquela parte da Bíblia que relata toda a descendência de Noé (2). Declama, sobre a mesa cheia de salgadinhos, suas façanhas, inspira-o a musa e o gênio dos carimbos. Fala, simplesmente, monótono e monocórdio. Os outros são obrigados a servir de assistência ou evadem-se alegando telefones e desarranjos intestinais.
O mais tedioso dessas ocasiões é quando elas passam a ter um certo caráter obrigatório. O pobre funcionário vem, de modo subtil, cordialmente coagido. Se não puder estar na festa, ai dele. Não lhe dirão nada os que desse costume sofrem e que colaboram para a atmosfera cerceante, mas o rancor mostrar-se-á patente nos trejeitos dos rostos inconformados.
A festa, de qualquer gênero, é marcada. Seus organizadores acham que ela tem prioridade sobre qualquer outro acontecimento, mesmo no caso da morte da mãe de alguém, greve do transporte público, consulta no dentista, qualquer coisa. “É um evento da empresa”, dirão e, o funcionário desarmado estará à mercê dos olhos perfurantes de toda a camaradagem da festa, queira lá estar ou não.
Fica logo patente quando a festa foi marcada e organizada sobre a lógica da socialização forçada: boa parte dos que se encontram no recinto ou estão emburrados, ou estão conversando sobre qualquer coisa que não seja o motivo da festa. Se é um aniversário, logo estarão descambando para o futebol ou para as desgraças do noticiário. Elogiaram a comida e também a bebida, se houver, mas no fundo, querem que tudo aquilo simplesmente exploda.
Num mundo que prima pelo individualismo e pela competição animalesca, a socialização forçada é um simulacro horrível e de mau gosto e deprime gente. Em alguns casos, é semelhante a um estupro, e um estupro que tem de aceitar-se sorrindo.
A socialização forçada não inclui somente as efemérides festivas, mas abarca também as piadas corporativas, que são as brincadeiras feitas no escritório e, para não ficar chato, mesmo que seja uma brincadeira vulgar ou sem a menor graça, é melhor rir, para evitar futuros problemas com rancores adormecidos. Quem conta a piada ou organiza a festa, quase sempre, tem um grande déficit de atenção e, para tentar saná-lo, busca a atenção coletiva, busca o “bem-estar coletivo”, mesmo que o coletivo não sirva para a maioria.
E tal socialização é um simulacro horrível, à medida que, no ambiente de trabalho, está-se cercados de línguas bífidas e guizos e tudo não passa de uma simulação, como uma peça de teatro vagabunda.

Notas

1) Ilíada, livro 2, 484-779
2) Gênesis, 10

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