As coisas viviam sumindo ali, naquele escritório: grampeadores, furadores, canetas de estimação, porta-canetas, caixinhas, bloquinhos de recado auto-colante, apontadores. Tudo sumia. Rebouças, o chefe da seção, mandou fazer sindicância, pois não agüentava mais ouvir desaforos e piadinhas do supervisor do almoxarifado e nem de estar toda semana na sala do diretor a dar explicações sobre os ridículos itens desaparecidos. A sindicância correu durante meses e sem algum resultado: depoimentos, arengas, argüições, careações, diligências, ninguém sabia de nada, realmente. Não havia opiniões contraditórias, ninguém se traía. Rebouças chegou a conclusão que alguém, muito escusamente, entrava no escritório durante a penumbra da madrugada e levava os itens ridículos. Alguém da segurança, faxineiros, alguém. Antes de formular mais alguma coisa e cair no ridículo, como caiu com a sindicância, macaco velho com quase trinta anos de serviço público, resolveu não dar mais nenhuma mancada até a aposentadoria: ia esconder-se na sala durante a noite e ia flagrar o meliante com a mão na massa. Depois que todos foram embora, Rebouças espalhou uns objetos a esmo pela sala e escondeu-se atrás de uma mesa, no fundo da sala. Ficou horas na sombra, até que ouviu um barulho, um rumor indefinível. Lentamente, Rebouças ergueu a cabeça e não viu nada nem ninguém, mas continuou a ouvir o barulho. Será que o safardana esconde-se dentro da sala também? Seria o Almeida, de quem todos desconfiavam, ou seria alguém como o Meneses, acima de qualquer suspeita? Rebouças ergueu novamente a cabeça, mas nada distinguiu na meia-luz da sala. Resolveu ir agachado, por detrás das mesas, até a fonte do ruído. Chegou à beira de uma mesa: era dela que vinha o barulho, mas não havia nada nem ninguém, mas o pouco que havia, sumia: um apontador de mesa afundava na madeira da mesa lentamente, como alguém que afunda na areia movediça; na outra ponta da mesa, um porta-clipes naufragava da mesma maneira, como um pesado transatlântico.
No dia seguinte, Rebouças mandou remover a mesa sem dar motivo algum, sobre o olhar incrédulo dos seus subordinados: mas justo a mesa que não era de ninguém e onde eles apoiavam as coisas! A mesa foi levada. Alguns meses depois, desapareceu o supervisor do almoxarifado: veio a polícia, a perícia científica, interrogaram meio mundo. Nada do homem. Família desesperada. Até que, depois de dois meses de desaparecido o supervisor, a polícia chegou à conclusão de que ele, por algum motivo – demência talvez – havia fugido. A última vez que tinha sido visto, foi por um dos seus subordinados, durante o período do almoço: ele dormia sobre uma mesa, como era seu costume, após as refeições.
Abril 11, 2007...2:55 pm
Sumiços
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3 Comentários
Abril 11, 2007 às 3:36 pm
Haha, genial. Genial mesmo.
Abril 11, 2007 às 9:32 pm
seria bom se Rebouças tivesse deitado nessa fatídica mesa…
Abril 13, 2007 às 1:05 pm
Fantástico… Creio que em todos os sentidos que a palavra possa comportar.